O vício

Estava conversando com uma amiga, também tradutora, e chegamos a uma conclusão assustadora: traduzir vicia.

Ambos temos uma experiência relativamente boa na área, ela mais do que eu, e começamos a comparar algumas situações do cotidiano tradutório e percebemos que são muito parecidas. Talvez pelo amor à profissão (algumas pessoas odeiam esse “amor à profissão”, mas podem ficar tranquilos, temos ciência de que amor não enche barriga e para nós traduzir é ganha-pão) ou pela falta do que fazer, sendo este último motivo meio bizarro, pois hoje há tanto o que fazer, vimos que quando começamos um serviço, ou seja, a tradução de um texto (seja ele qual for, por mais chato que seja) não conseguimos parar até esgotarmos nossas forças ou botarmos um ponto final do dito cujo.

Um exemplo que ela me deu:

“Estava em casa, deitadinha na minha cama com o laptop no colo, era meia-noite e no meu quarto há uma janela na direção da cama. Estava um dia frio e eu, quase congelada, pensei: preciso fechar a janela. Mas antes de fechar a janela abri um arquivo que deveria terminar no dia seguinte, só para ajustar umas coisas nele, deixar pronto para o trabalho do dia seguinte. Às 4 da manhã eu parei de traduzir o tal arquivo e ainda não havia fechado a janela.”

Não pode ser normal. Não podemos ser normais.

Eu também tenho essa mania. Muitas vezes tenho outras coisas para fazer, até mesmo descansar, pois o editor ou o cliente não estão no meu calcanhar babando e rosnando pelo prazo. E então eu sento à mesa, puxo o teclado e começo, inocentemente, a teclar. Uma frase. Duas. Três. E quando vejo já estou empolgado com o texto, resolvendo questões, pesquisando termos e anotando coisas. Muitas vezes piso no freio e digo: “pare, precisa descansar agora”. E com a cabeça grudado no texto vou rolar na minha cama até adormecer.

Será que um dia enjoaremos e apenas sentaremos na frente do computador com fins estritamente profissionais? Ou para quem traduz o vício do ofício é incurável?

Imagem: ROFL.to

Pra quê?

Você escreve pra quê? Pra quê, se ninguém lê? E se alguém ler, valerá a pena? E a história de que todas as histórias já foram escritas, fica onde? São tantas perguntas antes da grande e invisível interrogação da página em branco. A tela, claro, em branco. Aquele cursor, toc-toc-toc, sem rumo nenhum, sem bússola. E você escreve para quem quiser ler e para quem não quiser e até para aquele que pouco se importa se você escreve ou não, pois está interessado não na sua escrita, mas na dele ou dela. Não lê o que você escreve, mas adoraria que você lesse aquelas poucas páginas que surgiram num repente furioso no meio da noite, olha só, nem queria escrever tanto e veio de uma vez, você pode ler?

Não.

E daí encaramos um texto. E analisamos um texto. E chegamos a diversas conclusões, sendo uma delas muito simples: não devia ter sido escrito. Nem ao menos pensado. Não precisava. E é o nosso texto.

Alguém tem essa humildade, admitir que o próprio filho é torto?

Não.

E quando o filho é do outro? E você precisa cuidar dele como se fosse seu e alguém diz: hum… tá torto. Dá um medo de que a sua intervenção, seus mimos e cuidados tenham entortado aquele rebento alheio. Deixado fraco, insosso, ou forte demais, não era para ser assim. Pesa uma mão aqui, alivia demais ali e acaba deixando o filho alheio frouxo ou duro demais. Ou transforme em filha. Possibilidades e realidades que amedrontam.

E o cursor ainda ali, toc-toc-toc.

Embriaguez, talvez seja a solução. Aborto preventivo, talvez.

Não, também não.

Agora já foi, já não tem mais volta. Já está ali, pedindo mais. E já mimamos o bastante para voltar atrás. Não tem outro jeito. É encarar e ver no que dá.

Ao menos, há sempre aquele ombro com o qual contar…

Pinóquios modernos

Acabei de ler, não sem grande espanto, o drama quase profético em três atos do escritor Karel Tchápek (em tcheco, Karel Čapek) chamado A fábrica de robôs (Ed. Hedra, trad. do tcheco de Vera Machac). A história da peça não é novidade para nós, seres pós-modernos que já vimos inúmeras revoluções hollywoodianas acontecerem diantes dos nossos olhos: no mundo distópico criado por Tchápek, o doutor Rossum consegue criar um ser muito semelhante ao homem, porém desprovido de sentimentos, criatividades e sensações, o qual ele dá o nome de robô (que em tcheco significaria algo como servidão, trabalho forçado), palavra utilizada pela primeiríssima vez nessa obra e depois incorporada por praticamente todos os idiomas. A produção desenfreada de robôs para livrar o homem do trabalho braçal e mecânico leva a uma crise que seria o vislumbre do ocaso da humanidade. Se ainda há esperança, não serão os humanos que poderão responder?

Contudo não foi a história bem contada nos três atos, que também explora o machismo, as relações humanas deturpadas por interesses e a ganância do homem por fama, posição social e bens materiais, mas sim o fato de ela ter sido escrita em 1920, pouco depois da Primeira Grande Guerra. A visão de Tchápek sobre a sociedade de consumo que já florescia, muito provavelmente, foi encarada com certo desdém pelo grande público, contudo incomodou não apenas os circulos sociais da época, mas também os nazistas. Uma pequena biografia e um texto sobre a importância de sua obra para a literatura do século XX é bem explicada num ensaio do tradutor de línguas do Centro-Leste Europeu e professor universitário Aleksandar Jovanović.

Vale a pena!

 

Pelas ruas de Damasco

O segredo do calígrafoFoge a mulher do calígrafo. Há suspeitos de quem teria fugido com ela e também dos possíveis causadores dessa fuga, o que desperta a ira do artista das letras. Síria, anos 1950. Esse é o pano de fundo do delicioso livro O segredo do calígrafo (Ed. Estação Liberdade, trad. de Silvia Bittencourt), de Rafik Schami, que traz os aromas e sabores de Damasco do meio do século passado.

Hamid Farsi luta para fazer uma grande reforma na escrita árabe e por isso enfrenta muitas adversidades, o que afasta o calígrafo de Nura, sua bela mulher. Assim, ela se apaixona por um cristão e foge de casa, sem deixar vestígios. As histórias deste livro se cruzam e se entrelaçam como a caligrafia, em arabescos por vezes belos, em outras tristes ou engraçados, formando um painel bastante interessante de uma Damasco esquecida. Seu autor, damasceno nascido em 1946 e que vive na Alemanha desde 1971, traz para as páginas deste romance aquele contar de história à moda antiga oriental. Uma experiência dos sentidos, não apenas da visão.

Além disso, há diversas caligrafias no livro feitas pelo calígrafo sírio Ismat Amiralai.

Vale a pena.