Ontem vi (na verdade, mais ouvi que vi) parte do bate papo entre Marcelo Tas e Ronaldo Lemos sobre o tema Liberdade para os BITS, no qual exploraram as transformações da mídia e da indústria cultural. Num dos momentos, Ronaldo comentou uma coisa inquietante, que foi mais ou menos o seguinte: fomos absorvidos pelos gigabytes e hoje nossa maneira de olhar o mundo e de pensar é totalmente outra. Conversando com o Tiago sobre essa questão, chegamos à conclusão de que precisamos atentar a esse fato e lutar contra o pensamento de 140 caracteres, às conversas fragmentadas e à leitura ineficaz à qual nossos olhos estão se acostumando. Eis que no sábado me deparo com uma matéria no suplemento literário Sabático sobre slow reading, ou seja, a leitura atenta e lenta, a fruição da leitura em livros e afins. Seguindo os modelos do slow food e do slow traveling, ler lentamente vai virar moda, mas não no sentido pejorativo do termo, mas algo que veio para ficar (o quanto durar o burburinho). Talvez seja esse o caminho para nos recuperarmos um pouco da febre internética que faz com que não leiamos mais as coisas até o fim, deduzindo ou não se importando se a informação está completa ou não. O jornalista Patrick Kingsley começa seu texto dizendo:
Se estiver lendo este artigo impresso, o mais provável é que vá ler somente a metade do que escrevi. Mas se a leitura for online, talvez não chegue a um quinto dele.*
É um fato. O mundo dos blogues também tem muito disso, algo que passe de dois parágrafos já cansa os olhos e passar para outra tela, a do Twitter ou do Facebook, será uma alternativa mais atraente, na qual no máximo meio parágrafo (quando muito) te dá uma informação “completa”. E as conversas começam a ficar assim, a falta de diálogo cresce apesar da abundância de assuntos. A visão é a de que a velocidade parece tornar tudo mais palatável, transformando o afobamento numa qualidade. É isso que realmente queremos? Ronaldo Lemos, no bate papo, comentou que não tem Twitter. E decidiu por não tê-lo por diversos motivos e um deles foi se desligar um pouco. A necessidade de responder imediatamente aos e-mails recebidos, de ler e reagir aos recados nas redes sociais e ler e ouvir tudo que está na tela faz com que nossa atenção se disperse com mais facilidade, esse must to be, must to have que se transformou a vida virtual, se não controlado, vira uma verdadeira prisão e a vida continua lá fora (há tempos houve um caso de um chinês que morreu na frente do computador, numa espécie de overdose, se não me engano).
Assim, acredito que tenhamos que adotar às vezes (ou muitas vezes) o slow life, ou seja, diminuir o ritmo para viver melhor. Sei que é difícil, sei que há concorrência, necessidade, vício internético e tantos outros motivos que não caberiam aqui. Mas pense com carinho: está realmente valendo a pena estar três passos adiante, quando um seria de bom tamanho? Vale a pena sacrificar o tempo todo “seus” momentos, aqueles só seus, nos quais você decide o que quer?
Agora, câmbio e desligo. Pois o sol lá fora está lindo…