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Duas notícias das últimas semanas me fizeram pensar novamente na questão da qualidade da tradução e como essa medida por vezes é complexa.

A primeira diz respeito à premiação da Academia Brasileira de Letras de melhor tradução do ano de 2009. A sempre alerta Denise Bottmann publicou em seu blogue nãogostodeplágio os erros crassos do médico Milton Lins pelo livro Pequenas traduções de grandes Poetas – volume 4 e levantou a discussão sobre a responsabilidade da ABL perante o público, sendo ela a instituição representante da literatura no Brasil. Se ela premia algo de qualidade duvidosa, fere seus princípios de representatividade e põe em dúvida até a probidade da premiação. Porém, conforme aponta o jornalista Fabio Victor da Folha de São Paulo, o também ganhador do prêmio de tradução da ABL, Ivo Barroso, comenta: ”por aqueles exemplos que aparecem no blog da Denise, realmente há uma tradução fraca. Mas a Academia tem o direito de dar o prêmio a quem ela quiser”. Jório Dauster, tradutor de Nabokov e Salinger, rebate: “Mas é o órgão máximo da literatura brasileira” e Denise completa: “Até em virtude de sua imensa importância histórica, tem uma responsabilidade social e pública por seus atos que ultrapassa em muito a esfera privada”.

A segunda apareceu no caderno Sabático, d’O Estado de São Paulo, na seção Babel, da jornalista Raquel Cozer. Reproduzo aqui a notinha de 12 de junho que consta do blogue da jornalista:

TRADUÇÃO
Para estrangeiro ver

Tem muitas incorreções a recente tradução de Boleros em Havana, de Roberto Ampuero, lançada pelo selo Bonobo. Assinada por Viviane Vieira, inclui erros de português (como “mau-humorados”) e trechos sem sentido (como “terrível equívoco, pelo qual alguém deve estar pagando a pratos rotos” e “as intermináveis filhas dos que esperavam resignação por um pedaço de pão”).

Contatada pela coluna, a Novo Século, detentora do selo, afirmou que já havia detectado problemas na tradução e que recolherá o livro antes de lançar uma nova edição. Quem tiver comprado o título pode falar com a editora pelo tel. (0 –11) 3699-7107.

Temos dois casos que parecem desnivelados em matéria de importância, mas no fundo trazem o mesmo problema: compromisso. Essa palavrinha tão múltipla e profunda. Sem ele, instala-se desse maneira cada vez mais a desconfiança não apenas para os apontados, mas para a classe. Protecionismo, vistas grossas, tem de tudo nesse mundo, e nesse caso há diversos prejudicados: no caso da ABL, talvez outros tradutores que mereceriam o prêmio e foram privados por uma questão que não cheira muito bem. No outro caso, apesar do pronto reconhecimento do erro pela editora, lesa não apenas ao leitor, mas aos tradutores de um modo geral. Por experiência própria, não aceito a história de “pagam pouco, faço qualquer coisa”, pois isso não é postura de profissional nem aqui nem em lugar algum. Se aceitou o serviço, faça direito e não queime as poucas fichas que temos perante o grande público.

Certa vez uma amiga comentou sobre um outro livro, best seller há pouco, que estava infestados de erros e não eram erros bobos: concordância aos montes, problemas de tradução e texto incompreensível em diversos trechos. E em quem caiu a culpa? No tradutor, óbvio. Não que ele não tenha, mas o público não conhece o processo editorial, não sabe que depois do tradutor o livro passa por no mínimo três etapas de revisão, na mão de um monte de gente. E no final das contas, quem são os culpados: tradutor e editora, em geral nessa ordem. Por isso é o pedido que provavelmente será endossado por muitos colegas: se tiver que fazer, faça direito. Ou não faça.

Sobre Petê Rissatti

Tradutor profissional, leitor compulsivo e escritor. Paulistano com metade do coração mineiro. Presta serviços de tradução nos idiomas inglês e alemão para o português do Brasil.

6 respostas »

  1. complicadésimo, né, caro petê? e poucos dias depois dessa nota sobre boleros em havana, o querido luiz eduardo soares (@luizeduardosoar) comentava indignado no twitter:

    Chato criticar trabalho alheio,mas é 1 desastre total a tradução do belo livro Mente Cativa(ed.Novo Século),do prêmio Nobel Czeslaw Milosz.
    11:13 AM Jun 16th via web

    O desastre da tradução é tal,q tive ímpetos de recorrer ao Procom. Como é q se comercializa 1 coisa dessas? E o livro de Milosz é importante.
    11:15 AM Jun 16th via web

    não sei se a novo século também vai retirar esse livro do mercado, mas que é um acinte, é – aos leitores e ao ofício de tradução, porque bom tradutor não falta. mas o tal do papagaio come o milho e o periquito leva a fama…

  2. Leticia disse:

    Ontem, fofoquinha em uma editora Y: além de pagarem deliberadamente pelo tradutor mais baratex (aquilo de que falamos outro dia, sobre a preparação que acaba apagando incêndio), apresentamos a vocês o tradutor gúgle.

    Sim. O cara entregou um texto que traduziu pelo Google. (E ainda dou graças a Deus que ainda querem revisão. Dentro em breve, a julgar pelos exemplos citados, nem isso mais haverá.)

    Arrependamo-nos todos, porque o fim se aproxima.

  3. raqcozer disse:

    É verdade, não dá pra jogar a culpa só no tradutor, porque o mínimo que se espera é que o livro traduzido passe também pelas mãos do editor. Conheço uma pessoa que traduziu um livro do francês sem falar quase nada do idioma. Se o “tradutor” nesse caso não tem pudor em aceitar, sabendo ser despreparado, mais grave é a editora deixar isso passar.

    • É Raquel, coisa complexa essa. Mas com movimentos naturais do mercado essas editoras que fazem barbaridades vão sendo rechaçadas e desaparecem. Ao menos essa é minha esperança. Beijo.

  4. Ignez Machado disse:

    Não sei se alguém ainda vai ler meu comentário tardio, mas fico feliz de ver alguma repercussão sobre a tradução horrorosa do livro “Boleros em Havana”. Acabei de ler. Erros crassos de montão, e olha que só conheço espanhol de letra de bolero. Alguém aí falou em tradutor Google, pois foi a impressão que me deu. Parece coisa de tradutor automático. Tira todo o prazer da leitura. Brochante.

    • Ignez, sem atraso. Infelizmente, muitos tradutores usam de má-fé e se vangloriam de ter traduzido isso ou aquilo. O post de hoje fala um pouco disso e um pouco do cuidado que as pessoas devem ter ao atacar uma tradução. Obrigado pela visita…

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