Quando a porta fechou, deixou um vazio. A mão espalmada na janela do vagão era a fotografia da despedida. Era o desconsolo. E a vida que se espalhava desordenada nos próximos 60 anos não poderia ser mais sem graça. Foi o que pensou naqueles poucos segundos que se congelaram entre o beijo e o baque das borrachas da porta.
Então mudou de casa, de caminho, de marca de cigarro e de óculos, de café para chá de boldo, de horário de trabalho e foi mudando o quanto pôde, mas a imagem era nítida: o beijo, o baque e a mão espalmada marcando o vidro. Só não conseguia deixar de ir uma vez por semana àquela plataforma, na segunda porta do terceiro vagão, com uma esperança de ela esta na porta. Era o que pensava. Ficava ali das 20h00 às 20h30, às quintas-feiras. Um pouco antes, ou depois. E nada acontecia.
Não era quinta, ou quarta, muito menos terça, mas numa segunda-feira que por acaso desembarcou ali, na plataforma. Esperou dez minutos, pouco mais, ou menos. Olhou no relógio duas vezes. O eco do nada se confundia com o rangido agudo dos trilhos. Subiu na escada rolante com a esperança de que ela o levasse para longe dali. E um olhar pescou o dele do meio daquela massa quase amorfa que descia apinhada. Quando os olhares se cruzaram, na mesma altura, quase se atracaram, num afã que beirava o obsceno. E se viraram. E se encararam. Até o fim.
Amo seus textos e seus comentarios no Facebook. Quando leio, vejo sua bela figura bem nitida na minha memoria, fruto dos bons tempos de Unibero! Gracas a internet, eu, que moro na Florida, posso alcancar um pouco dos meus queridos amigos que deixei no Brasil!! Abraco carinhoso
o texto é bom qdo faz o coração da gente perder uma batida: a mão espalmada na janela é a foto da despedida.
Essa definição deixou minha noite mais brilhante. Obrigado, Celina.
Fala PT
Muito bom… Se não for um abuso de minha parte, postarei este lá nos Escritores…
Abs
Be my guest, dear. Entre hoje e amanhã sairá mais um, eu acho. Aguarde e confira…