Dribles e lances com palavras

A bola está rolando, nos pés de um time internacional: Brasil, Argentina, Espanha, Uruguai e Alemanha se encontram num grande amistoso nas páginas de A bola entre as palavras, lançamento da [e] editorial, que traz diversos craques nacionais e internacionais para falar de sua paixão: o futebol.

Vamos à escalação dos craques:

Adolfo Montejo Navas (Espanha) – poeta e curador de arte
Cristovão Tezza – escritor
Eduardo Coimbra – artista plástico
Lula Vanderley – artista plástico
Manuel da Costa Pinto – ensaísta e crítico literário
Martín Kohan (Argentina) – professor e escritor
Reynaldo Damazio – poeta e crítico literário
Ricardo Aleixo – poeta
Teixeira Coelho – professor e curador do MASP
Vanderley Mendonça – editor e tradutor
Wolfgang Bock (Alemanha) – professor e ensaísta
Yamandú Canosa (Uruguai) – artista plástico

Comentários: Piero dela Riva (Itália)
Traduções: Vanderley Mendonça e Petê Rissatti

Diversas histórias e reflexões sobre o futebol arte, passado e futuro da bola e muitos passes divertidos compõem essa seleção. Lançamento em 16 de junho. Aguardem os próximos lances…

Amores e lançamentos

Eu gosto de coleções. Mais de algumas que de outras. E quando envolvem livros, literatura e viagens, gosto mais ainda. E essa é a proposta da Coleção Amores Expressos, da Companhia das Letras, que numa empreitada ambiciosa enviou 17 autores para diversas partes do mundo para escrever sobre o amor, em todas as suas formas. De acordo com matéria d’O Globo sobre essa coleção, além da coleção de livros, dois cineastas também retratarão essas viagens por suas lentes. De volta ao Brasil, cada autor foi incumbido de fazer uma história inspirada no local para o qual foi enviado. Já foram lançados Estive em Lisboa, lembre de você, de Luiz Ruffatto, O filho da mãe, do Bernardo de Carvalho, Cordilheira, do Daniel Galera, ao que me consta. Os últimos dois já estão na minha estante, aguardando sua vez para serem lidos. Já folheei ambos e o do Galera começa de forma arrebatadoramente simples: um pai que percebe como sua filha virou adulta. É lindo.

E na próxima terça-feira, dia 1º de junho, haverá outro lançamento: Do fundo do poço se vê a lua, do Joca Rainers Terron, é o próximo livro da coleção e trata de um tema bastante manjado na literatura, gêmeos que se separam, mas com uma visão tão inovadora que deu água na boca. Abaixo a resenha da Cia. das Letras:

Do fundo do poço se vê a lua conta a história de Wilson e William, gêmeos nascidos em São Paulo nos anos finais da ditadura. Órfãos de mãe e criados pelo pai, ator, os meninos são treinados para atuarem juntos, mas as brincadeiras da infância, porém, revelam que a semelhança dos irmãos é apenas física. William é violento, taciturno e masculino, enquanto Wilson é feminino e dono de inteligência tão sagaz quanto compulsiva.
A espinha dorsal do romance é a batalha de Wilson para livrar-se da imagem espelhada do irmão e se transformar numa figura feminina inspirada pelo objeto de sua obsessão, a rainha egípcia Cleópatra, sobretudo como encarnada no cinema por Elizabeth Taylor.

Bem, vamos conferir em breve, daí comento por aqui. Vejam o convite virtual, tirado do blogue de Terron, Sorte & Azar S/A:

καλαμπόκι

καλαμπόκι, dizia um dos homens ao outro, apontando a polenta por trás da redoma do balcão daquele boteco, onde se misturavam a carne seca árida, ovos coloridos, torresmos milenares. καλαμπόκι e um rosário intermináveis de uma fala-canção, desmedida e com um ritmo antigo, estranho, e entre diversas palavras para mim desconhecidas καλαμπόκι surgia como uma boia na qual eu me segurava. Minha cerveja já estava no fim, as cascas de amendoins dominavam metade do pires à minha frente e minha cabeça estava tão longe que não sei como reconheci aquela palavra, mas ela insistia em submergir daquele mar de estranhezas e significava milho. Dava para saber do que falavam, mas não o quê. Qualquer tentativa de compreendê-los sem parecer invasivo me parecia naquele momento inútil. E isso me incomodou.

Estrangeiro.

Se ainda estivesse num país distante. Talvez minha cabeça estivesse lá. Na Ελλάδα, entre oliveiras e os aromas de μουσακάς recém saído do forno, às margens do mar Mediterrâneo, tomando ούζο fresquinho sob o sol de julho. Mas estava naquele bar tão puto, tão sujo, encravado no meio de um nada, entre uma praia deserta e uma cidade não mais povoada, mas ao menos tinha minha língua. E me sentia forasteiro no sentido mais estrito da palavra, por fora daquela pequena realidade que se instalara entre o minuto no qual aqueles dois homens se aproximaram do balcão e o momento no qual o dono do bar tirou minha garrafa e disse “mais uma, chefe”, instante que me arrancou daquela espécie de sonho. Eu havia sido levado a uma terra tão distante pelo cantar despreocupado daqueles dois gregos e καλαμπόκι me invadiu sem ao menos pedir licença, me vi desnorteado ouvindo aquelas vozes que soavam íntimo entre eles, um código que não conseguia desvendar. Eu era o intruso, o espião. Quase um voyeur de conversas alheias, perdido num alfabeto que distava milhares de quilômetros e de séculos daquele instante.

Do lado de fora.

Sentaram ao meu lado. Aquela palavra-âncora havia sumido das volutas de palavras que me traziam algo que não era meu. O prato de polenta chegou fumegando da cozinha, que horas eram? Não sabia e nem me preocupava, pois a música grega que chegava aos meus ouvidos atordoavam todas as minhas certezas. Eu disse polenta e apontei para o prato dos dois. Eles sorriram e apontaram para o prato, como se me oferecessem a iguaria. Eu disse o nome é polentaisso, polenta e mostrava o prato para eles. E eu repeti a palavra, καλαμπόκι, e eles se assustaram, rindo. Eu peguei uma, botei na boca, ela queimava, a polenta, o fubá e a água e o sal e o alho, derretendo entre meus dentes. Eles riam. Tentei falar inglês, perguntar de onde vinham. Eles falavam um inglês ruim, um espanhol ruim, mas o grego deles era perfeito. Ao menos para mim, que não entendia nada. Puto, comecei a conversar em português e eles respondiam em grego, uma esgrima de idiomas, aos poucos conseguíamos nos entender de alguma forma, os gestos, os risos, a cerveja gelada. Pedi um prato de torresmo, imitei um porco e dizia porco, pele de porco, eles repetiamtoresmio, toresmio.

Não era dali.

Já bêbados, nos despedimos. Ainda me sentia ilhado, com vontade daqueles sons, καλαμπόκι, μουσακάς, Ελλάδα. Eles fizeram questão de pagar a conta, eu não me fiz de rogado e aceitei. Ainda caminhamos pela praia por um tempo, naquela conversa de doido, cada um na sua. A despedida foi efusiva, muito obrigado, muto obrigadu. Ao lembrar disso, com as malas na mão e ainda sem entender uma palavra de grego, sinto que a minha vida começou ali, naquela conversa de bar. Passagem comprada. Ida sem volta. E uma certeza. Não sou de lugar nenhum.

Google Translator: qual a sua opinião?

Entre os tradutores, essa é uma pergunta que não quer calar.

O desempenho do tal Google Translator está assustando algumas pessoas e foi até mesmo capa de revista. A tradução automática, ou seja, a compreensão de um idioma estrangeiro no seu idioma por meio de uma maquininha, já é sonhada pelos homens há muito e há poucos anos a ideia de tradução automática ainda era motivo de chacota entre os profissionais. Até surgir a ideia de memória de tradução e os engenheiros e profissionais da tecnologia de informação começarem a trabalhar sobre esse conceito e ter a ajuda benevolente (e gratuita) de diversos usuários dos sites de busca (em especial o maior e mais conhecido deles, o Google). Numa explicação bastante simplificada, o Google Translate, quando tem uma tradução ruim, pede ao usuário que dê uma tradução melhor. Assim, ele alimenta a própria memória e reorganiza possibilidades de tradução para as próximas consultas. E assim sucessivamente.

E você, tradutor? Tem medo do que essa maquininha cada vez mais poderosa pode fazer com seu trabalho?

Muita gente já está tremendo, prevendo um futuro sem tradutores, só as máquinas trabalhando, roubando o espaço conquistado com tanto esforço e labuta, ó, como farei?, dizem muitos tradutores. E como não podia deixar de ser, deu muito pano para manga no CIATI, inclusive com profissionais respeitadíssimos e estudiosos da tradução aventando a possibilidades do uso dessa ferramenta. Acredito que John Milton não estava brincando quando disse, numa de suas palestras: “Se você não usou, provavelmente vai.” Depois dessa afirmação, um riso nervoso ecoou na plateia. Toda de tradutores e profissionais do idioma.

E por que não?

Numa ótima palestra virtual com Danilo Nogueira, intitulada Como fazer o Google Translator comer poeira, a discussão sobre a utilização atual do site e suas possibilidades vieram à baila e a única maneira de realmente deixar o programa para trás é a profissionalização cada vez maior dos tradutores. O Google Translator pode até ter o intuito maléfico de tomar dos tradutores o seu trabalho, mas quantas profissões já não foram ameaçadas pela tecnologia e ainda resistem bravamente, representadas por profissionais de competência ímpar e força para mostrar ao mundo que são necessários? Ele ainda será muito utilizado para que as pessoas possam saber do que trata um determinado texto ou site em outro idioma, para adiantar algumas coisas no processo de tradução e para decidir o que deve ser traduzido de verdade e aquilo que não é necessário, mas a mente humana continuará guiando os passos estranhos e vacilantes do programinha. Vejam um pequeno exemplo do idioma alemão para o português de um site de dicionário chamado LEO:

Texto na língua fonte (alemão):

Vier Jahre werden die Wörterbücher mittlerweile durch die LEO GmbH angeboten. Wie zahllose aus jeder Zeitung herausfallende Jubiläumsprospekte deutlich machen, müssten wir diesen Jahrestag eigentlich mit entsprechenden Sonderangeboten verknüpfen. Da dies bei einem kostenlosen Angebot schwer fällt, preisen wir schlicht an, was sich in den letzten Monaten entwickelt hat:

Tradução do GT para o português:

Quatro anos é oferecido dicionários já foi substituído por LEO GmbH. Como destacar inúmeros aniversário de cada jornal queda folhetos fora, teríamos que realmente esta ligação aniversário com ofertas adequadas. Desde que este é difícil oferecer uma queda livre, louvamos simplesmente o que tem desenvolvido nos últimos meses:

Agora um exemplo tirado do New York Times (aqui) para vermos que, por outro lado, o avanço é grande também, dependendo do idioma:

Texto na língua fonte (inglês):

The conflict, which prompted the government to declare a state of emergency over the weekend, pits supporters of Christopher Coke, wanted in the United States on gun and drug charges, against Prime Minister Bruce Golding, who has relied on Mr. Coke’s influence to win votes in the west Kingston neighborhood that both men share.

Tradução do GT para o português:

O conflito, que levou o governo a declarar estado de emergência no fim de semana, poços apoiantes de Christopher Coke, queria nos Estados Unidos na arma e posse de drogas, contra o primeiro-ministro Bruce Golding, que baseou-se na influência do Sr. da Coca-Cola para ganhar votos no bairro West Kingston que compartilham os dois homens.

Entendeu? Pois esse é o tipo de tradução que você conseguirá ao utilizar o Google Translate. Dá para saber do que se trata? Talvez. Mas nesse caso (e acredito que na maioria deles) será esse o produto final sem um trato de um verdadeiro profissional. E talvez no futuro nós, tradutores, viremos grandes revisores e preparadores de material traduzido eletronicamente e aí é que são elas: ou você conhece ou não conhece do que está falando. E quem ficará no mercado? Aposto nos tradutores profissionais.

E você?

Conversas entre Tradutores: 1 mês

Hoje fazemos um mês de Conversas entre Tradutores, uma ideia que surgiu do nada e que hoje tem me dado bastante orgulho, por entrevistar gente que admiro e que muito me inspira para continuar na batalha tradutória. E para fechar esse mês de Conversas, consegui uma entrevista generosa e muito animada com a tradutora e intérprete Heloisa Velloso. Vale a pena conferir.  

E as entrevistas continuam em junho, com muitas novidades: professores, tradutores de legenda, de áreas diversas e até entrevistas internacionais.

Por isso, agradeço a todos os entrevistados até o momento e os vindouros, aos amigos e leitores que prestigiam o blogue e a todos aqueles que chegam a essas paragens. Espero que estejam se divertindo como eu estou.

Rapidinhas

Quando as coisas ficam atribuladas, sempre é bom dar uma resumida nos acontecimentos mais recentes. E lá vamos nós:

- Acabou-se o CIATI, na quinta-feira passada, e ainda não consegui um tempinho para organizar os materiais e começa a escrever sobre eles aqui. Mas em breve dividirei com vocês os temas mais discutidos no congresso.

- A Copa está chegando e também chegará um livro para o qual fiz a tradução de uma crônica futebolística. Será pelo selo [e] da editora Annablumme, aguardem.

- Saiu a ganhadora do Blablablogue, como vocês já sabem, e logo tomarei um café com ela para entregar o presente e trocarmos figurinhas. Estamos afinando agendas para o evento. Posto fotos assim que o esperado café rolar.

- Esta semana será de correria. E também de alegria. Temos mais um conversa com tradutores e dessa vez a interpretação também será tema. Não percam, é na quarta-feira.

- Estou preparando um texto sobre tecnologia tradutória, mais precisamente sobre o Google Translator. Preciso ainda fazer uns testes e falar com pessoas experimentadas no assunto. Aceito sugestões e dicas.

- Ontem foi lançamento do livro do Luiz Bras, como anunciei aqui, e foi um sucesso. Muita gente interessante, alunos de outras paragens e sempre o encontro delicioso com amigos. Depois que acabar As benevolentes (daqui uns três anos), vou entrar no Paraíso Líquido de cabeça.

- Hoje também mandei projetinho para a Funarte, para a Bolsa de Criação Literária. Prêmio bom a vista, mas concorrerei com muita gente mais do que boa. Então desejem-me sorte, muita muita sorte mesmo.

- Quero uma máquina de inspiração para escrever. Alguém tem uma para me vender a preços módicos? Com garantia, por favor. Obrigado.

Bem, é isso. Mais novidades, volto para tagarelar aqui.

De Cobra Norato para o mundo

Hoje é um dia especial. Luiz Bras lançará seu primeiro livro para o público adulto, chamado Paraíso Líquido. Já conhecido por suas obras infanto-juvenis, como A poção da vida, Bia Olhos Azuis, A Família Fermento e A última guerra, em parceria com a querida Tereza Yamashita, agora ele se embrenhou no mundo dos grandinhos e com certeza vai dar o que falar.

Ainda mais com a maneira que ele encontrou de divulgar essa empreitada. Lançar, literalmente, o livro nas mãos de seus leitores. Nas palavras do próprio Luiz:

Este livro significa uma mudança importante na minha vida e na minha literatura. Uma mudança que pede uma celebração, um brinde com os amigos. Mas o tim-tim não será com taças de champanhe. Pensei em algo diferente: que tal brindar com o próprio livro? Darei um exemplar de presente a todos os que forem ao lançamento na AIC, como agradecimento aos amigos que fizeram, fazem e farão parte de minha caminhada literária. Também como agradecimento ao Programa de Ação Cultural, que possibilitou sua publicação.

Será na Academia Internacional de Cinema, às 19h30. Veja o convite abaixo:

Vejo vocês lá! 

Dunga e a tradução

Que você acha da escalação do técnico Dunga? Não levou alguns dos preferidos dos fãs de futebol, mas levou alguns desconhecidos do grande público. Teve uma tarefa inglória: enfrentar e assumir suas decisões frente a milhões de técnicos informais. Muita gente diz que faria melhor, que as decisões dele foram erradas e que ele deveria fazer isso ou aquilo.

Mas quem tem experiência suficiente para fazê-lo?

Algo muito parecido acontece na tradução a todo o momento: gente despreparada que diz “eu faço e aconteço”. Muita gente (pelo que soube com certo espanto) vivendo de tradução automática e se mantendo nesse mercado cobrando o que podem: pouco mais que nada ou muito mais que devem. E muita gente aceitando essa situação como se fosse a coisa mais normal do mundo. A partir do momento em que essa pessoa se diz profissional ela joga num balaio de gato todos os outros, moendo de certa forma a capacidade de tradutores realmente profissionais e lançando essa farinha sem pejo no mesmo saco.

Por isso admiro o Dunga. E por isso admiro os tradutores profissionais. Ambos vivem de fazer escolhas, tentar trazer o melhor, enfrentando muitas vezes críticas irascíveis, por vezes infundadas. Mas apenas quem está lá e precisa tomar uma decisão (por um jogador ou por uma palavra) sabe o quanto se sofre e o quanto se precisa aprender para fazer um bom trabalho.

PS.: Tantos posts de tradução são reflexos do congresso que participei. Tem mais, aguardem…

Urgente – Saiu a ganhadora do Blablablogue

Minha gente querida,

Como sabem fiz aqui um concursinho para premiar o número 10 mil que entrasse no blogue, mas ele não apareceu. Daí fiz diferente, deixei que os comentários no blogue me trouxessem o premiado e hoje, há pouco, ele surgiu. Na verdade ela. Pode parecer até marmeladinha (e não foi), mas a tradutora Carolina Coelho, a primeira entrevistada do Conversas entre Tradutores, ganhou. O comentário 1899 do blogue seria o contemplado e ela, depois da leitura da entrevista com a Isa Mara Lando, inocentemente fez seu comentário e “tchanan”!, ganhou o livro Blablablogue – Crônicas e Confissões. Obrigado Carol e a todos aqueles que comentam, dão seu pitaco e me enchem de alegria.

Twittar ou não twittar

Baleiou?

Essa foi uma discussão de um almoço congresseiro: ter ou não ter twitter, eis a questão? Dois ou três dos componentes da mesa eram categóricos: não entro, para que mais uma rede social? Outros dois (inclusive eu) me posicionei a favor da ferramenta, apesar de admitir seus contras, talvez até em maior quantidade que seus prós, mas esses últimos compensam o risco.

Twitter é uma rede social e, como já sabemos, um simulacro da sociedade ou uma microssociedade (nem tão micro assim), no qual valem as regras de conduta normais da sociedade, com a vantagem de você não precisar saber (ou, numa tradução mais stalker, seguir) quem não quer. Essa é uma vantagem que o twitter tem sobre as outras redes, pois ali ninguém cobra ser seguido, até porque a ferramenta foi pensada para ser um grande monólogo ou um microblogue, um diário e, para os mais radicais, um monólogo para o mundo. A decisão de seguir ou não seguir é do usuário, não depende de ser “de bom tom” ou não como de costume nas outras redes sociais (apesar de não ser regra, claro).

Na minha visão talvez tecno-romântica, o twitter está entre o MSN e os bilhetinhos que deixamos para pessoas queridas saberem que estamos bem e para que saibamos delas. Serve para termos um contato rápido, mandar notícias relâmpago, compartilhar fotos e links, enfim, muito do que fazíamos em outros sítios podemos fazer aqui e ainda exercer a concisão: são 140 caracteres para desenvolvermos uma ideia completa e por muitas vezes ela precisa se estender. Por esse motivo, a morte anunciada dos blogues já caiu por terra, visto que as pessoas (oi, eu?) gostam de esticar um pouco mais que isso.

Não há como evitar as groselhas alheias, ou seja, o blablablá inútil do cotidiano das pessoas (“Fui ao mercado”, “Acabei de fazer as unhas”, “Saiu pro almoço”), mas uma tecla resolve: unfollow. Mas dá para manter contato com pessoas de perto e de longe de forma rápida e certeira. E essa é uma das características que destacam o twitter, a extrema rapidez. Por isso, ao meu ver, o piado do passarinho azul veio para ficar.

Aqui, uma discussão interessante do UOL Tecnologia sobre o que e como falar no twitter, depois que um editor da National Geographic foi demitido por falar o que lhe deu na telha no twitter. Já tivemos algo parecido aqui, com a Locaweb e seu diretor corintiano fanático.

Tradução sentimental

No primeiro dia de congresso, além de todos os encontros e reencontros, houve muito material que ainda dará o que pensar para este que vos escreve e a muitos participantes do V CIATI. Duas apresentações dessa abertura seguem de alguma forma uma linha de estudo de tradução que, acredito eu, tem movimentado muito a massa cinzenta de diversos estudiosos da tradução. Não farei aqui um muito texto acadêmico ou teórico, mas colocarei minhas impressões e o que me tocou nessas duas apresentações, uma do americano Doug Robinson, da Universidade de Mississipi (Narrativity in Translation) e outra da Profa. Dra. Lenita Esteves (Atos de Tradução). Apesar de diferentes, ambos compartilham da mesma visão sobre tradução: ela não é apenas um exercício linguístico, mas um ato concreto e alça o tradutor de sua qualidade de mero instrumento à de narrador (Doug) ou especialista em comunicação intercultural (Esteves). Esse não foi o foco das palestras, mas uma parte que considerei importante repensar.

Depois de ambas as apresentações, refleti sobre como essas qualidades se espelham no meu trabalho e como a realidade dessa condição de narrador/agente está intimamente ligada à nossa profissão, sem considerar a tipologia textual, ou seja, o tipo de texto a ser traduzido. Mais que uma “recompartimentalização” estanque de palavras de um idioma para o outro, somos transmissores de cultura e isso não é novidade para nenhum tradutor ou intérprete profissional. Nesse mundo de glossários, corpora, tradução auxiliada por computador e afins há seres humanos com seus sentimentos, idiossincrasias, escolhas e preferências que dão à profissão o aspecto de arte para a contrapartida do ofício.

Num texto que traduzi há pouco me deparei com essa situação: ter em mãos um texto que me remetia a emoções que não são minhas, não tinham como ser, mas que pela leitura do texto me traziam imagens, de forma consciente ou não, de algo que apenas vi em documentários, filmes, fotografias e na literatura. Segunda Guerra, holocausto, as temeridades e perdas de deportados e refugiados, a frieza ou, ao contrário, a bondade do lado cáqui da força. Poderia encarar o texto como um simples texto, como um profissional isento de sentimentos pela situação, até por que havia um lado ficcional no seu teor. Mas ele me tocou de forma contundente, obrigando paradas constantes para repensar aquilo que havia feito, não como um profissional do idioma, mas como ser humano compadecido com todas as agruras da guerra. Re-narrar era minha missão naquele momento, recontar uma história que havia sido contada em outro idioma para o público brasileiro se aproximar daquela realidade, de maneira fiável, com a emoção do original (sem ser piegas) como se aquele texto houvesse sido escrito em português e, ao mesmo tempo, deixando o gostinho do estranho, do estrangeiro (Fremd) no texto. Mas isso é um outro assunto (viva Vanutti!), que comento em outro post.

Conversas entre Tradutores – Não percam!

Para quem traduz e se interessa por tradução, não perca hoje a entrevista com a querida tradutora e professora Isa Mara Lando, autora de um dos ótimos recursos em língua portuguesa disponíveis aos profissionais da língua: VocabuLando – Vocabulário Prático Inglês-Português.

É só clicar no nome dela ali no Conversa entre Tradutores ou aqui.

Enquanto isso, o V CIATI ainda rola. Logo comento aqui sobre o congresso.

Se

Quando voltei do banheiro do café olhei Ivan de longe, me aguardava de frente para uma xícara de café que esfriava: a camisa amarrotada e os cabelos desarrumados destoavam dos óculos delicados de aros finos e de sua postura quase aristocrática. Lá fora a chuva caía com violência e o que se via pela vidraça eram vultos de carros e esboços de prédios. Meu olhar percorreu as mesas do lugar quase vazio, a não ser por uma senhora gorda que parecia ter a cabeça enterrada nos ombros; suas mãos pequenas escreviam num pequeno caderno sem parar. Duas mesas a frente um casal muito jovem, mão sobre mão sobre a mesa, num silêncio sorridente. E meu companheiro de café que, como um telescópio, varria o ambiente com seu olhar.

— Essa chuva. De surpresa -, disse eu para recomeçar a nossa conversa.

— Dessas que ninguém espera -, respondeu, como se entendesse meu desconforto em voltar à mesa com olhos tão vermelhos – Não há porque chorar, já foi.

— Mas não é justo. Poderia ter sido diferente.

‘Se’ é uma palavra maldita pela imensidão que descortina à nossa frente. Talvez devesse ser banida do dicionário, do imaginário. Ela não deixa que as coisas simplesmente aconteçam, cutucam o cérebro que num repente projeta diante de nossos olhos tudo aquilo que poderia, apesar de sabermos que não poderá. A escolha de um caminho e o aperto de um gatilho perdem a sua força quando colocamos à frente de nossa frase o ‘se’ e suas concordâncias condicionais. No primeiro caso, ao menos temos a opção de pensar no que se seria se fosse outro o caminho.

— Se não fosse desse jeito…

— Se é uma palavra maldita…

— Sim, você já disse -, me interrompeu Ivan, num corte mais dolorido que todos os que eu tinha na mão esquerda.

— Você não sabe o que eu tô sentindo.

— É por isso que estou aqui -, disse ele – exatamente por isso.

Ivan tinha esse poder de arrancar de mim tudo o que eu não gostaria de falar e às vezes até aquilo que nem sabia estar na minha cabeça. Por isso eu o odeio. Por isso eu também o amo. Nessa gangorra de sentimentos (digo, meus sentimentos) ficamos dias sem nos falar e quando nos reencontramos recebo aquele abraço eterno, interrompido apenas por minha vida sem muito sentido. Então sentamos no mesmo café, no mesmo horário de sempre.

— Ela poderia ter esperado apenas mais um dia. Eu poderia provar…

— Acabou, Marcelo. Acabou. Entenda de uma vez por todas, você sofre desse jeito,  ela deve sofrer também…

— Você não tem como saber – eu disse, ríspido.

Os cafés esfriavam. Os olhos de Ivan procuravam nos meus gestos um flanco desprotegido para novamente desferir suas palavras duras, o amargo de seus comentários verdadeiros. Sim, eram reais suas palavras e eu não conseguia negá-las nem para mim, quanto mais fingir em meu olhar que elas não me atingiam. Por mais estranho que pareça, me senti solitário por alguns segundos, como se o mundo desaparecesse por instantes, um desmaio talvez, um desmaio consciente.

— Vou embora, Ivan. Amanhã nos falamos -, disse, me levantando pegando meu casaco.

— Mas a chuva, olhe essa chuva. Você não vai conseguir sair daqui.

— Se eu não for as coisas podem piorar.

E deixei para trás meu amigo, sem aquele abraço. Apesar de saber mais de mim do que eu próprio, não sabia da minha dor. De não saber se… de não ter como sabê-lo mais, nunca mais. O gatilho e o caminho já haviam sido escolhidos antes mesmo de eu tomar qualquer decisão, me encontrar. Olhei ainda uma vez a mulher gorda e o casal, estavam como congelados no tempo, quase via uma poeira sobre suas mesas. Ao tocar na maçaneta  olhei para trás: Ivan não havia se virado, estava impassível, girando sua colherinha dentro do café, no seu desalinho aristrocrático. Foi melhor assim. Foi melhor me entregar à chuva.

Semaninha longe

Olá minha gente,

Nesta semana, como muitos sabem, acontecerá o V CIATI (Congresso Ibero-Americano de Tradução e Interpretação) e estarei lá para reencontrar amigos, conhecer novos colegas e saber das últimas novidades do cenário da tradução.

POR ISSO, e apenas por isso, os posts quase diários terão uma pequena pausa. Menos as Conversas entre Tradutores, que continuam firmes e fortes às quartas-feiras. Não deixem de conferir, pois nesta semana tem uma entrevista imperdível.

Uma semana delícia para todos e, quando der, apareço por aqui.

O que vai acabar primeiro?

O livro de crônicas O Romance Morreu (Cia. das Letras) abre com o texto que dá título à coletânea, no qual Rubem Fonseca brinca com os diversos anúncios de que a literatura estava fadada ao desaparecimento ou havia perecido com os adventos tecnológicos dos mais diversos, desde o Ford T até a Internet e chega à conclusão (ou a hipótese) de que na verdade quem estaria em vias de escafeder-se era o leitor, não o escritor. Esse resiste com bravura no seu desejo de espelhar o mundo em suas páginas. Depois dos anúncios divertidos, o autor dispara dados tristes:

Uma pesquisa recente sobre hábitos de leitura no meio universitário chegou a conclusões espantosas: trinta e seis por cento dos pesquisados nunca, repito, nunca haviam lido sequer um livro de ficção. Uma minoria lia um ou dois livros de ficção durante o ano. Um número grande lera apenas um livro a vida inteira. Estamos falando de universitários.

Essa foi a deixa para que Tzetan Todorov, historiador e ensaísta búlgaro, entrasse em cena: A literatura em perigo (DIFEL) é um livro pequeno, mas com um tema poderoso, numa abordagem que não deixa por menos para explicar as razões pelas quais as pessoas não se sentem atraídas pela leitura. Ele, filho de bibliotecários, sempre esteve às voltas com os livros e, sob o jugo da ditadura comunista na Bulgária, foi obrigado a se dedicar à linguística e ao estruturalismo, apesar de pender para estudos de caráter mais ideológico (totalmente proibidos e vigiados pelo regime). Ao chegar na França para um trabalho acadêmico, percebe que o currículo “ocidental” é composto não por leituras, mas pelas provas e obrigações baseadas na leitura, ou seja, ler não como algo prazeroso, mas um “castigo” ou uma espécie de “trabalho forçado”. A literatura torna-se algo importante quando compreendemos seu poder e Todorov diz num trecho:

A literatura pode muito. Ela pode nos estender a mão quando estamos profundamente deprimidos, nos tornar ainda mais próximos dos outros seres humanos que nos cercam, nos fazer compreender melhor o mundo e nos ajudar a viver. Não que ela seja, antes de tudo, uma técnica de cuidados para com a alma; porém, revelação do mundo, ela pode também, em seu percurso, nos transformar a cada um de nós a partir de dentro.

E quando se compreende isso um mundo novo se abre. Hoje vemos iniciativas governamentais e privadas cada vez mais intensas, como rodas de leitura, visitas de escritores a cidades mais distantes, feiras, festivais e muitos outros acontecimentos. Porém os livros ainda são objetos caros, inacessíveis para muitos, um luxo ainda considerado desnecessário – quando bem deveriam vir, como já disseram, na cesta básica -, por isso ainda falta muito para chegarmos a um nível mínimo e bom de leitura. As pessoas costumam fugir dos livros, evitá-los, como Asmodeu de um bom crucifixo, mas os motivos são diversos, camuflados na famosa frase: não gosto de ler. Tem gente que não gosta mesmo, ponto final. Mas muita gente só precisa de uma exposição mais forte e pumba, taí mais um leitor.

Por isso, não desanimemos, escritores: seja para quem for que escrevamos, ainda há chance de virarmos a mesa e ver esse terreno árido se transformar num manancial pululante de leitores para todos os gostos.

Uma obra de tradutor para os tradutores

O tradutor Fabio M. Said é uma das figuras do cenário da tradução que contribui bastante com o crescimento e a compreensão da profissão com seu blogue Fidus interpres. Para mim, em especial, ele se tornou uma referência, pois está há bons anos no mercado e trabalha com os mesmos pares de idiomas que eu: inglês e alemão para o português. E agora ele compilou parte de sua experiência no livro com o mesmo nome de seu blogue.

São tópicos muito interessantes que ele aborda, por exemplo:

- Como ingressar no mercado de tradução?
- É melhor ser empregado ou freelancer?
- Como escolher um curso de tradução?
- O que é preciso para trabalhar em casa?
- O que fazer para ser tradutor juramentado?
- Existe “panelinha” na tradução literária?
- Como fazer um blog de tradutor?
- Como fazer marketing usando a Web 2.0?
- Que investimentos faz um tradutor?
- Quais os problemas da tradução técnica?
- O que é tradução jurídico-comercial?
- O que é localização?
- O que é memória de tradução?
- Como garantir qualidade em traduções?
- Como lidar com cliente mau pagador?

Para quem quiser informações sobre a obra é só clicar aqui. Logo, logo providenciarei o meu!

Parabéns e obrigado Fabio pelo seu trabalho em prol da profissão e dos profissionais da tradução.

P.S.: Não se esqueçam que hoje, no Conversa entre Tradutores, temos Danilo Nogueira e Kelli Semolini, num bate-papo mais que animado.

Levanta a poeira…

Nelson de Oliveira é um escritor e tanto. Já falei dele diversas vezes por aqui, rasguei muita seda, mas não é à toa: o cara tem a manha. Acabei de ler seu último livro, Poeira: demônios e maldições (Ed. Língua Geral, 399 p.) e fiquei mais uma vez intrigado com o domínio que ele tem da sua ferramenta, quase arma, que é a escrita. A surpresa é um elemento chave para Nelson, bem como o detalhamento, em especial neste livro, com as inúmeras referências a filmes, outros livros e outras artes. O bate-papo com escolas já tradicionais da literatura dão um tempero especial, do realismo fantástico à fantasia distópica.

A história se passa numa realidade alternativa na qual os livros são um grande incômodo: há livros em todos os lugares, em todos os cantos. Há um controle feito por imensas bibliotecas e cada vez mais elas são construídas para suprir a necessidade de espaço e organização dos tomos. Decretos contra novas impressões já foram baixados e tudo parece sobre controle.

Até que novamente começaram a surgir livros clandestinos, reedições e novas obras, sem que ninguém saiba de onde vieram. Fred, um bibliotecário de uma cidade sem nome, ficou transtornado com a chegada de caixas de novos livros como se surgidos do ar em sua repartição. Para resolver essa pendenga, surge Pedro Penna, um engenheiro que aparentemente chegou ali para dar um jeito na situação. Porém, os livros não param de surgir e Fred começa a enfrentar problemas não apenas na sua vida profissional, mas sua vida pessoa vira um inferno: seu casamento com Estela começa a ruir, sua relação com a filha parece distante e tudo fica cada vez mais estranho naquele mundo. Criaturas medonhas rondam a cidade, os depoimentos sobre elas não levam a lugar nenhum, pixações surgem como os livros, de lugar nenhum, avisando que o Mal está presente.

No mínimo surpreendente. A sensação de estranhamento e a ambientação absurda, beirando (e às vezes ultrapassando) o surreal, invadem as páginas de Nelson como em outros livros (veja esse post aqui, sobre O oitavo dia da semana). Este livro é uma aula para quem gosta e se aventura pela escrita, em diversos sentidos.

E por falar em literatura…

Acredito que esse seja um assunto que rende altos papos e voltar nele para mim é sempre gostoso e produtivo. Ainda mais quando encontro uma matéria que em grande parte corrobora com aquilo que penso sobre literatura de diversos tipos. A matéria do fundador do site Estante Virtual, a maior rede de sebos do Brasil, concedeu uma entrevista para a revista Língua Portuguesa e em certo trecho apresenta uma resposta convincente à questão que propus neste post aqui.

Qualquer leitura não é leitura

Com essa frase André termina um trecho da entrevista no qual ele é questionado sobre o papel do best seller no estímulo da leitura e essa é uma discussão muito divertida. No post que fiz, muitos dos comentários seguiam o mesmo raciocínio: no Brasil, onde quase não se lê, ler qualquer coisa é melhor que nada. André sintetizou em sua resposta o que também acredito: ler qualquer coisa e ler nada, às vezes, dá no mesmo. Concordo que, num país onde a televisão ainda tenha um domínio grande, desviar a atenção de uma pessoa para um livro é uma conquista, seja ele qual for. Porém, de acordo com os dados do Instituto Pró-Livro (Retratos da Leitura no Brasil), já saímos do embrião da relação com os livros e caminhamos para saltos cada vez maiores, o que se comprova com o faturamento das livrarias e também dos sebos.

Contudo, isso ainda se concentra na modinha ou nas famigeradas listas de mais vendidos, o que gera um círculo vicioso duplo: compra-se o best seller de uma editora, que tem mais dinheiro e expõe mais seus livros que vendem mais e viram best sellers, então, para seguir a lista, compra-se esses best sellers da mesma editora, que tem mais dinheiro… A editora pequena, por sua vez, publica com afinco, mas não tem grana para a exposição, nem para comprar matérias em jornais e revistas, seus livros não viram best sellers, a editora vai à falência e os encalhes são jogados fora.

Círculos viciosos

Esses círculos viciosos minam qualquer possibilidade de ampliação de horizonte e o foco permanece sempre na venda. Um querido professor sempre diz que o mercado de livros é como qualquer outro. Não importa que aquele título X seja ótimo e tenha bastante conteúdo, o outro, aquele que apareceu nas revistas e jornais, terá seu lugar ao sol na prateleira mais visível da loja. E, nesse caso, talvez qualidade e visibilidade estão longe de andar juntas. Não sou contra, como já disse e repito, de a pessoa ler o que quiser, mesmo sendo a pior coisa que alguém já possa ter feito na vida, mas que mescle com algo considerado prazeroso e inquietante ao mesmo tempo. Dar uma passeada pelas estantes da biblioteca e/ou livraria para folhear os livros antes de pegar emprestado/adquirir, livros diversos, ao acaso, é uma maneira bastante gostosa de se descobrir novos autores e permitir-se inovar.

Descrença e tentativa (ou caminho se faz caminhando)

Alguém já ouviu a seguinte pergunta: “Eu não consigo ler o que você lê.”? E a minha pergunta é: houve a tentativa? Para algumas leituras não estamos preparados e ninguém é obrigado a terminar um livro que não gosta, não consegue ou ainda não tem experiência ou bagagem para prosseguir. Os livros estão e estarão sempre lá, no aguardo, esperando que você esteja pronto para eles. Desisti duas vezes de A montanha mágica, do Thomas Mann e uma vez de Cem anos de solidão, do Gabriel García Marquez, porém o segundo eu consegui ler até o fim. Não estava pronto na primeira, terminei na segunda, que é que tem? Algum problema? Mas as pessoas nem dão o primeiro passo, como querem fazer a caminhada. Ela se faz caminhando, não há escapatória.

Crença

Acredito que a situação do livro e da leitura no Brasil esteja num processo franco de mudança. Quem antes não suportava a ideia de ter um livro em mãos hoje já o encara com mais tranquilidade. Vemos nas conduções, nos cafés, em lugares antes impensáveis pessoas com seus livrinhos nas mãos. As novas gerações começam a dividir seu tempo com as leituras, em diversos suportes, em especial com a ajuda de e-books e computadores. As livrarias deixaram de ser lugares sisudos para tornarem-se pontos de encontro para adultos e de diversão para crianças, com espaços infantis, shows, música etc. As artes se mesclam e a oferta está aí, falta apenas uma direção. Mas ao menos já seguimos por um caminho que, espero eu, seja sem volta: a democratização do acesso à leitura e aos livros, o apoio de associações, governos e sociedade em prol do gosto pela leitura que, mais dia, menos dia, refletirá no crescimento cultural de nosso país. Ufanista, talvez. Mas eu acredito que as coisas podem mudar.  E você?

Eventos e lançamentos

Para quem for de Sampa ou estiver por aqui entre maio e junho, eventos de literatura e um lançamento para curtir.

Na biblioteca Alceu Amoroso Lima, ali em Pinheiros, vai rolar um lançamento bem bacana do selo Demônio Negro (Editora Annablume): Neo-poemas-pagãos, do poeta português e.m. de melo e castro, com apresentação do Prof. Antonio Vicente Seraphim Pietroforte (USP), terá leitura de poemas e mostra de infopoesia. De acordo com o editor, o valente Vanderley Mendonça:

Este é mais um livro da série especial limitada, produzida e montada artesanalmente, numerado, capa-dura em tecido e impressa com clichês.

Os livros da DN são lindíssimos mesmo, muito bem cuidados em todo o processo. Valem a pena. Será no dia 12 de maio (próxima quarta-feira), a partir das 19h00. Vou dar uma passadinha rápida, com certeza. Quem sabe a gente não se encontra?

Veja o convite:

O outro é um evento realizado pelo Espaço Cultural Terracota reunirá escritores para falar sobre escritores. Vinícius de Moraes, Paulo Leminski, Clarice Lispector e Erico Verissimo serão relidos por Calos Felipe Moisés, Ademir Assunção, Nelson de Oliveira e Jeanette Rozsas, como parte dos projetos relacionados ao curso de especialização em Prática de Criação Literária, coordenado por Nelson de Oliveira e Claudio Brites. Acontecerá entre os dias 7 e 10 de junho e as vagas são limitadas.

Local: Espaço Terracota
Av. Lins de Vasconcelos, 1886
Vila Mariana – São Paulo – SP
Tel.: (11) 2645-0549

Horário: das 19h30 às 21h00

Valor: R$ 35, cada palestra, ou R$ 100 pelos quatro encontros.

Abaixo, o informativo:

Neste também estarei, ao menos em dois dias.

Aproveitem, crianças.

Escadaria

Quando a porta fechou, deixou um vazio. A mão espalmada na janela do vagão era a fotografia da despedida. Era o desconsolo. E a vida que se espalhava desordenada nos próximos 60 anos não poderia ser mais sem graça. Foi o que  pensou naqueles poucos segundos que se congelaram entre o beijo e o baque das borrachas da porta.

Então mudou de casa, de caminho, de marca de cigarro e de óculos, de café para chá de boldo, de horário de trabalho e foi mudando o quanto pôde, mas a imagem era nítida: o beijo, o baque e a mão espalmada marcando o vidro. Só não conseguia deixar de ir uma vez por semana àquela plataforma, na segunda porta do terceiro vagão, com uma esperança de ela esta na porta. Era o que pensava. Ficava ali das 20h00 às 20h30, às quintas-feiras. Um pouco antes, ou depois. E nada acontecia.

Não era quinta, ou quarta, muito menos terça, mas numa segunda-feira que por acaso desembarcou ali, na plataforma. Esperou dez minutos, pouco mais, ou menos. Olhou no relógio duas vezes. O eco do nada se confundia com o rangido agudo dos trilhos. Subiu na escada rolante com a esperança de que ela o levasse para longe dali. E um olhar pescou o dele do meio daquela massa quase amorfa que descia apinhada. Quando os olhares se cruzaram, na mesma altura, quase se atracaram, num afã que beirava o obsceno. E se viraram. E se encararam. Até o fim.