Arquivos anuais: 2011

Post atualizado – A volta e o tcheco

Atualização do post de 20 de novembro: 

Se na metade do livro eu já indicava A guerra das salamandras, agora eu posso dizer que é leitura obrigatória. É impressionante como Čapek monta, com muita graça, a história que se repete ad infinitum aqui em terra firme. A questão da guerra, do autoritarismo e de todos esses males que atingem os humanos foram minuciosamente pensados pelo autor, tanto que é possível enxergar a humanidade e seus muitos desesperos: por conseguir salamandras, por educar as salamandras e por fim…

Se lerem (e quando lerem) comentem por aqui. Gostaria de saber da opinião de vocês também.

Boa leitura…

***

Post original de 20.11.2011

Voltei. Mas isso é o de menos. Vamos ao que interessa.

Há quase um ano, escrevi aqui sobre um cara chamado Karel Čapek (leia aqui). Na época, comentei sobre A fábrica de robôs (Ed. Hedra, tradução de Vera Machac) e que havia ficado bastante impressionado com as ideias dele sobre o homem, suas capacidades e as adversidades que podem surgir a partir das aptidões humanas. Outro livro que foi publicado aqui dele é Histórias apócrifas (Ed. 34, tradução de Aleksandar Jovanović), que já está na minha lista de compras. Mas, antes dele, botei na fila de leitura A guerra das salamandras (Ed. Record, tradução de Luis Carlos Cabral).

E o que me surpreende nessa história toda? Čapek ainda é um ilustre desconhecido aqui nessas paragens.

Estou no meio de A guerra das salamandras e não costumo emitir opiniões sobre um livro antes do derradeiro ponto final. Porém, a leitura desse livro está sendo tão prazerosa que decidi falar dele já, mesmo sem saber o que vem por aí. A começar pela tradução que está muito boa. Não, eu não tenho a menor noção de tcheco, mas o que tenho aqui é um livro muito bem escrito e isso me leva a crer que a tradução esteja excelente. Vi uma resenha por aí dizendo que está realmente boa e não tenho motivo algum para desacreditar.

O livro traz a história de estranhas salamandras gigantes que um certo capitão Van Toch descobre em mares distantes. Transformadas num negócios bastante lucrativo, as salamandras começam a procriar de tal forma que, mesmo sem ter lido até o fim, já prevejo uma superpopulação que originará a tal guerra que o título já entrega. Porém, isso é o de menos também, pois o que importa são as reações humanas frente àquilo de que os próprios homens são capazes. Como em A fábrica de robôs, a ganância desenfreada e a falta de tato do ser humano faz com que ele se enrosque. Entre a ingenuidade e a avidez pelo lucro, a ilusão e o sonho convertido em cifras e poder, temos no livro escrito em 1936 a antecipação do totalitarismo que tomaria de assalto a Europa poucos anos depois. Sorte ou azar, Čapek faleceu em 1938 e não testemunhou grande parte de seus escritos se tornar realidade a partir de 1939.

É provável que eu faça um acréscimo a esse post quando terminar a leitura, mas já fica a dica: A guerra das salamandras, de Karel Čapek, vale a pena!

Da arte de se comprometer

Uma velha máxima de toda profissão, que se aplica obviamente à tradução: se prometeu, cumpra. A desculpa de que ‘paga pouco, então faço nas coxas’ ou ‘é só pro curso, não tem importância’ faz com que as pessoas tenham dúvida quanto a sua capacidade de comprometimento e isso pode ser uma mancha que nunca mais se apaga. Essa mácula será um dos fatores determinantes para o sucesso ou fracasso de um tradutor. Pior que o atraso de um serviço é o cliente sentir que o ‘job’ dele é tratado como qualquer coisa. E mesmo que seja qualquer: você aceitou a bronca, agora leve até o fim e com dignidade.
E isso não vale apenas para o seu cliente. Vale também para os colegas tradutores que, não raro, indicam a gente quando não conseguem ou não sabem o que fazer com aquela patente complicada, com aquele manual técnico infernal ou receitas de bolos e doces diversos. Você levará o nome do colega contigo, então faça bonito para você e para ele também.

Por isso, como diz o capitão Nascimento: missão dada é missão cumprida.

Os prós do ProZ (ou “ele continua…”)

Nos dias 12 e 13 de novembro aconteceu a III Conferência do ProZ no Rio de Janeiro. Para quem não sabe, ProZ é um portal de tradutores no qual você troca experiência, encontra clientes e fica sabendo as últimas novidades sobre tradução, no sentido mais amplo. Do início ao fim a conferência foi ótima, orquestrada pelo Filipe Alverca que, com toda a paciência e profissionalismo, conseguiu tornar esse fim de semana no Rio muito proveitoso.

Mas a melhor parte de tudo isso foram as pessoas. Pude conhecer pessoalmente muita gente boa, tradutores de renome que a gente vê nas páginas de rosto dos livros ou conhece pelo destaque no setor, outros que fazem e acontecem com a tecnologia e muitos outros que estão no início da carreira. Todos muito empenhados em contribuir como podiam e fazer do congresso uma grande celebração à tradução. Tomei longos cafés com amigos queridíssimos do Rio, sempre acompanhado pelos também queridos paulistanos, mesmo aqueles que moram tão longe (na Inglaterra, pra ser mais específico). Troquei poucos cartões, mas muita experiência com as pessoas e valeram muito a pena esses dias de sol e chuva…

Sem mencionar o visual do Rio de Janeiro. Ai, ai… ele continua lindo.

Recapitulando

Uma das minhas mais próximas e queridas amigas, a Roberta, sempre me deseja neste dia que meu ano novo particular seja bom. No mínimo bom. E nesta data eu costumo recapitular, que seja por alguns minutos, o que aconteceu no meu ano velho, ao qual dou adeus com sensação de missão cumprida. Trezentos e sessenta e cinco dias, alguns laços desfeitos, outros feitos de última hora, outros muito mais apertados: em resumo, este é o saldo. Reencontrei alguns prazeres e não deixei meu único vício grave. Pus muito mais a mão na massa, mas na hora em que achei por bem botar. Disse algumas verdades que não foram compreendidas, ouvi algumas que precisei compreender. E logo depois ouvi palavras que esperava há muito, sem sequer pedi-las, sem nem pensar que as merecia. Tomei decisões que mudaram muito a minha vida e a de quem está comigo e, por mais que essas mudanças tenham sido bruscas, não deixaram muito mais que uma lembrança. Li muito, mas quase 80% profissionalmente, o que foi bom e ruim ao mesmo tempo. Comprei mais livros e mais dicionários e quase já não sei o que fazer com minha pilha de não lidos ao lado da cama. Atrasei mais do que devia, adiantei muito para surpreender. Me rendi ao idioma espanhol e recomecei a estudá-lo, me aprofundei no amor pela língua alemã e me profissionalizei mais ainda no inglês. Virei um macmaníaco. Dormi tarde, acordei cedo, dormi cedo e acordei mais tarde, nadei um pouco e ainda voltarei a nadar com mais regularidade. Descobri que podia ficar o dia todo numa janela junto de pessoas muito parecidas comigo, mas todas muito diferentes também, e me tornei alguém mais feliz depois disso. Aceitei ajuda, corri em auxílio, fiquei quietinho e berrei muito. Fiz minha primeira tradução literária. Chorei sozinho, ri muito bem acompanhado e compartilhei com quem devia o que antes não podia. E um peso saiu das minhas costas. Tive saudades, matei-as muitas vezes e finalmente vi quem habita meu peito.

É um lampejo, esse ano novo particular. Mas cada vez que passa, consigo aproveitar melhor a sua luz.

Um beijo a todos e que possa vê-los no próximo. E nos próximos…

Imagem: Uarrr.org

40 minutos

Quarenta minutos para terminar o dia do tradutor e não escrevi nada sobre a data. Nem uma linha inteira que valesse a pena, nem cheguei a 140 caracteres. Desde que abracei a profissão tem sido assim: dia de tradutor é mais um dia de trabalho, mais um dia para resolver a vida. Mas hoje tive um prazer que nunca antes experimentara: passei o dia do tradutor do jeito que quis, com pessoas queridas e um pouco sozinho, com estranhos em vários cantos do mundo numa conferência virtual e, também virtualmente, com outras pessoas que em tão pouco tempo ocuparam um grande espaço na minha vida.

Todos tradutores, diga-se de passagem.

Por isso, nesses últimos quarenta minutos que encerrarão mais um dia 30 de setembro, desejo de verdade e sem titubear que todos fechem seu dia felizes pela profissão que escolheram ou na qual estão prestes a entrar. Como disse uma amiga hoje, ali no Twitter: parabéns pela difícil arte da tradução. Porque é uma arte.

Grande abraço a todos!

Imagem: George Stavrinos, Flickr

Dois eventos: um já-já, outro daqui a pouco

Minhas gentes, saudadocês, viu?

Mas a vida tá doidinha. Daí já viram, né?

Por isso, passei aqui rapidinho para divulgar dois eventos. Tudo bem que um deles está em cima da hora, mas acredito que valerá a pena, então vamos lá:

TRANSFUSÃO – I Encontro de Tradutores do Centro de Estudos de Tradução Literária “Casa Guilherme de Almeida”. Acontece de 30 de setembro a 3 de outubro e o evento é totalmente gratuito. As inscrições (acho que ainda dá tempo) devem ser feitas por e-mail ou telefone, diretamente com o Centro de Estudos. Mais informações, clique aqui.

III Conferência proZ.com no Rio de Janeiro – 12 e 13 de novembro. Evento organizado pelo site proZ.com sobre tradução e afins, uma ótima oportunidade para rever amigos, conhecer colegas e saber mais sobre o que acontece no mundo da tradução. As inscrições de “early bird” foram prorrogadas até a próxima sexta-feira, 30 de setembro. Mais informações, clique aqui.

Nos vemos lá?

Ao lado do mestre

Fim de semana assisti finalmente o filme que retrata o último ano de vida de Liev Tolstói, na visão do seu secretário, Valentin Bulgakov: A última estação (do diretor Michael Hoffman). Me encantaram as belas atuações de Helen Mirren e de Christopher Plummer, no papel de Tolstói, mas o que realmente mexeu comigo foi outra coisa: a possibilidade de estar ao lado de um grande mestre e a imagem que fazemos deles nem sempre configura uma realidade. O jovem Valentin é adepto das ideias de Tolstói (um típico tolstoiano), que tinha como ideal a libertação do ser humano das amarras da propriedade em prol do bem comum, o que deixava a condessa Tolstói (Mirren) furiosa, visto que eram nobres numa Rússia pré-revolução. Quando se depara com o mestre, simplesmente passa mal: não sabe se ri, se chora, se desmaia… acaba por ser acudido pelo próprio escritor, num dos pequenos vexames que lembramos para o resto de nossas vidas. Tolstói, naquela época, era uma mistura de Messias e artista pop. Sua vida era escarafunchada pela imprensa, que aguardava ansiosa pelos arroubos da condessa ou pelos escândalos dentro de Yasnaia Polyanna, a propriedade de Tolstói.

Me peguei pensando, após o filme, como seria trabalhar ao lado de um vulto da estatura de Tolstói? Ou algum outro mestre, digamos, Guimarães Rosa. Qual seria a nossa reação. E se descobríssemos que nosso ídolo não é nada daquilo que pensamos, apenas um ser humano que escreve. É o risco da adoração, nada calculado, pois a decepção pode ser grande. Mas seria bom se deixássemos de seguir pessoas que com suas palavras nos tocaram?

Não cheguei a conclusão nenhuma, para ser sincero. Mas as imagens de Tolstói ao lado de Bulgakov, abrindo o coração, dizendo barbaridades e se divertindo com o pupilo deslumbrado, são impagáveis. Aos poucos, Bulgakov descobre que Tolstói não é apenas humano, mas que errou muito e luta contra seu amor à condessa em prol de seu ideal. Um filme tocante, que vale a pena.

Versão: um erro conceitual

Na área de tradução no Brasil (não sei se em outro país isso também ocorre) convencionou-se chamar de versão qualquer texto que parta do nosso idioma para um idioma estrangeiro. Talvez seja uma implicação não apenas minha de que esse termo não apenas significa pouca coisa no que diz respeito ao ato tradutório, mas também carregue consigo uma ideia perigosa que ainda grassa na mente dos leigos: que a tradução seja um espelho do texto original. Nesse caso, cabe muito bem o termo versão que, grosso modo, seria apenas uma modificação de um mesmo produto, ou seja, “versionar” um texto, como muitos dizem fazer, significa alterar algo existente e o resultado: a mesma coisa.
Para quem leva a tradução a sério, é claro que no título do livro de Umberto Eco sobre tradução, “Quase a Mesma Coisa”, o quase carrega muito mais do que se imagina. E considerar o texto traduzido o mesmo texto que o original em outro idioma pode indicar duas coisas: tremenda ingenuidade ou, no pior dos casos, temerosa má-fé. Juridicamente temos a prova de que o texto traduzido não é a mesma coisa coisa nenhuma. Pela lei dos direitos autorais, o tradutor é considerado nada menos que o coautor da obra autor de obra derivada (muito obrigado, Denise Bottmann), pois o tradutor, na condição de humano, cria um novo texto a partir de outro texto codificado em outro idioma (ou original), sendo ele elaborado, pensado e transformado, e não apenas processado, como faria uma máquina.
Talvez eu seja cri-cri, talvez implique com bobagens. Porém, as palavras escondem camadas e segredos e os tradutores devem estar afeitos às mirabolâncias da língua. Para quem acredita que é tudo a mesma coisa, coloque seus textos num tradutor eletrônico e sinta a diferença de não ter um ser pensante no comando…

P.S 1.: Agradeço à Ana Iaria pela ajuda com o tema.

P.S. 2: A correção muito pertinente por quem entende do assunto. Denise Bottmann, sempre atenta, veio ao auxílio da questão, indicando que não seria coautoria a tradução, mas autoria de obra derivada. Está no comentário da Denise, mas coloco aqui também o link para a Lei dos Direitos Autorais: http://www.planalto.gov.br/Ccivil_03/Leis/L9610.htm

Pequenos prazeres: cabelo

Nunca gostei do meu cabelo. Minto, passei a não gostar dele quando algo de estranho aconteceu com ele. Tinha de seis para sete anos e pela primeira vez fui ao barbeiro cortar o cabelo. Antes disso minha mãe cuidava dos meus cachinhos, era uma coisa meio indiozinho, meio anjo, um cabelo bem pretinho que caía e balançava ao lado das minhas orelhas. Até que chegou o momento de eu enfrentar a cadeira do barbeiro e por um momento pensei que ele faria minha barba, como meu pai fazia, como meu irmão estava prestes a começar a fazer. Eu, caçula, aguentava firme os puxões de cabelo do meu irmão mais velho, mas quase não aguentei quando sentei na cadeira de couro vermelho com um banquinho em cima para “dar altura”, como dizia o barbeiro.

Então veio aquele corte quase militar. Cabelinhos para o lado, pezinho feito, tudo nos conformes. A partir daí não havia quem desse jeito naquele cabelo carapinha e eu amaldiçoava o barbeiro que havia estragado aquilo que tanto me deixava feliz, um dos meus brinquedos prediletos. Até que comecei a estudar ciências, as mudanças hormonais e a adolescência sempre devastadora. Entre outras coisas, o cabelo ficou bem crespo e eu insistia nos cortes que me deixavam com cara de cotonete. Ou de palito de fósforo. Até que chegou o vestibular, a entrada na faculdade e os amigos que cuidaram para que não sobrasse nenhum fio na minha cabeça. Ficar careca me rendeu ser pintado na faculdade com batom

24 horas e muita gente pensar que eu havia sofrido uma operação no cérebro. Depois disso, nunca mais deixei crescer a ponto de fazer cachinhos, mas percebi ao menos que eles ficaram um pouco mais macios.

Há pouco não consegui passar no amigo cabeleireiro para me livrar deles e me deparei com um pequeno prazer: lavar os cabelos. Há tempos não usava xampu e condicionador e tem sido bem gostoso espumar o cabelo com um vagar tranquilizante, pensar na vida e nas coisas e em nada ao ensaboar e enxaguar aquilo para o qual antes eu pouco dava bola. Não que eu vá deixá-lo crescer, nem vontade tenho para cuidar tanto de um cabelo que não me favorece, mas ao menos, enquanto ele estiver maior do que eu costumo deixar, me entregarei ao prazer de lavá-lo com o cuidado que há tempos não tive com ele. Não, não fui acometido por uma febre metrossexual. Apenas descobri mais uma coisinha que deixa o dia um pouco mais divertido.

PS.: Vou tentar fazer de vez em quando uma pequena croniqueta como essa. Me digam, o que vocês acham?

A voz

Nesse período relativamente curto no qual tenho me dedicado com mais ou menos afinco à literatura, seja como leitor atento, tradutor diligente ou escritor diletante, diversas vezes ouvi e li sobre a tal “voz literária”. Diversas vezes discuti com amigos sobre a tal voz, buscando na minha cabeça algo que soasse como tal, sem muito sucesso. Cheguei a ouvir de algumas pessoas que eu “escrevo de gravata”, ou seja, que meu texto é rebuscado, como se isso fosse um defeito irremediável, algo sem cura, moléstia odiada pelos escritores.
Fiquei triste, confesso. Pensei em mudar minha escrita e me lançar a experimentações e outras ousadias, refazer minhas tentativas literárias com linguagem chula, com simulacros da língua falada e coisas assim. Li muitos autores contemporâneos para talvez encontrar algo que me desse uma luz sobre a minha postura e meus escritos. Sem muito sucesso também.
Até que um dia, numa conversa com a querida Laura Fuentes, me veio a luz: eu construo a minha voz literária com aquilo que eu recebo das tantas vozes que pairam por aí. Lembrei daquela crítica e pensei: se essa é a minha voz, não vou negá-la. Talvez haja alguém que goste dos meus textos engravatados, pode ser que a crítica aos poucos se transforme em elogio e que encarei de forma muito melindrada as palavras daqueles que de antemão classificaram o que escrevo (e nem escrevi tanta coisa assim…).
Então, de certa forma, a voz literária não vem de dentro, mas de fora. Aquilo que lhe dá corpo está por aí, voando livre, como conversa alheia que escutamos com rabo de ouvido. Ele que faz a literatura e o escritor deve saber como deixar que essas ideias e palavras corram a tela vazia ou o papel desértico. Engravatada ou não, será assim o que escrevo, assim será a minha literatura.

+ uma rede social

Buzz, acho que agora o pessoal do site mais famoso da web, que inclusive virou verbo dicionarizado, acertou a mão. Uma interface limpa, mecanismos de privacidade eficientes e (ainda) sem permissão para gifs de estrelinhas e fadinhas dançantes ou jogos viciantes, o Google+ tem causado agito entre as redes sociais. Mas não entre seus usuários.

A primeiríssima pergunta é: mais uma rede social? E a resposta clara e objetiva é: sim. Isso na visão do público que já começa a se encher do Facebook, como aconteceu com o Orkut e outros, mas não via alternativa senão continuar curtindo. Alguns atribuem à invasão brazuca a derrocada do Orkut, mas eu penso que seus sistemas ficaram bastante ultrapassados depois que o site do senhor Zuckerberg dominou uma grande fatia do mercado mundial e, como era de se esperar, virou febre por essas bandas. Diferente do Twitter, cuja proposta é muito outra e deve continuar como líder na sua proposta, acredito que a escalada do Orkut ao Google+ se deu por muita observação dos engenheiros googlelianos até chegarem à eureca: mais é menos.

A proposta do Google Wave era mais ambiciosa que aquela do Google+ e até acho que hoje ela faria mais sucesso, talvez até mesmo desbancasse todas as outras redes sociais. Compartilhamento de arquivos, textos, links, vídeos e fotos em tempo real e na nuvem com grupos determinados já era uma ideia apreciada, porém não tínhamos (isso faz quanto tempo? Dois anos, se muito!) equipamentos que viabilizassem isso em qualquer lugar, tampouco a ideia de tudo na nuvem era confiável. E o site também era meio bagunçado (ainda está no ar, para quem não conheceu, é só clicar aqui) e faltou boa vontade dos usuários.

Então, acredito que chegou a hora da Google no mundo das redes sociais. Particularmente, simpatizo muito mais com o Google+ do que com o Facebook, o qual pouco uso e nem tenho vontade de entrar. Como disse o Tiago, “já está com cheiro de Orkut esse Facebook”. Acredito que agora cabe aos usuários dar mais uma chance ao Google+ e cuidar para que não vire o samba do afrodescendente psicótico.

O novo do Marcelino

Conheci Marcelino Freire numa oficina de escrita erótica do SESC e nunca esqueci de uma frase dele que tem norteado alguns dos meus textos (ligue o sotaque pernambucano antes de ler a frase):

Digue logo o que tu quer e vá simbora.

A concisão é a marca registrada do escritor e agitador cultural, pai da Balada Literária e um dos criadores do selo Edith, agora capitaneado pelo editor do selo Demônio Negro, Vanderley Mendonça, com quem tive o prazer de trabalhar. E de acordo com o próprio Vanderley, essa marca resiste:

Amor e morte. Começo e fim. Sexo e paixão. Eis as armas do novo livro de contos do escritor pernambucano MARCELINO FREIRE. Uma reunião de “pequenos romances”, como ele mesmo chama as 14 histórias do livro.

Na próxima quinta-feira, dia 14 de julho, haverá o lançamento de Amar é Crime, no Centro Cultural b_arco. Como sempre, regado a muito agito e literatura, o evento promete. Veja abaixo o convite (que no dia 13 acontecerá no Sarau da Cooperifa).

Vejo vocês lá.

Errando e aprendendo

Os erros são parte importante da vida.

Algo que faz parte da vida de todos, mas que fica cada vez mais difícil de as pessoas aceitarem: o aprendizado com erros e acertos. Todos estamos fadados a errar e ter a glória do acerto na conta, mesmo assim poucos se dão conta do valor da falha na vida de todos. Cada vez mais as pessoas tentam jogar seus erros para debaixo do tapete e expor acertos como troféus de uma vida ilibada. Ora, se todo mundo erra, por que teimamos em nos esquivar e às vezes atribuir ao alheio a nossa falha? Assim fazem os pais, quando não aceitam que seus filhos têm problemas, que muitas vezes foram causados por eles próprios, ou quando fazemos vista grossa aos defeitos de nosso amor para evitar atritos. Até mesmo entre amigos, muitas vezes, temos medo de repreendê-los e, ao meu ver, a partir do momento no qual não temos a liberdade de dizer a quem gostamos que ele ou ela está errado (ou nos melindramos ao ouvi-lo), não há amizade sincera.

Tenho uma historinha sobre os erros e a capacidade de aceitá-los para melhorar. Numa aula de pós, o prof. João Azenha nos apresentou um trecho de um livro traduzido e pediu para que apontássemos os problemas daquela edição, comparando-o com o original. Na primeira parte da aula encontraríamos os problemas e discutiríamos na segunda parte. Quando a segunda parte da aula começou, houve um bombardeio: eram erros recolhidos por nós, imprecisões que achávamos e outras coisas que eram mais implicações que erros de verdade. Azenha só anotava e dava duas próprias opiniões. No fim, disse algo assim:

— Traduzi esse livro no início da minha carreira, ainda engatinhando na tradução. Suas observações foram ótimas, quem sabe se eu puder um dia refazer essa tradução eu possa usá-las.

Houve um silêncio constrangedor, seguido de risadas. João se expôs, mostrou seus erros e como anos depois conquistou um lugar entre os profissionais mais respeitados. Acredito que tenha feito isso para mostrar o quanto aquele primeiro degrau, meio torto e capenga, fez com que ele chegasse lá. Sem aqueles erros ele não teria aprendido a acertar, sem os acertos os erros ficariam irreconhecíveis. Assim é na tradução e, muito antes, na vida.
Por isso, não tenha medo de errar. A lição estará logo ali, te esperando…

¡Hola!

Don Quijote, Pablo Picasso

Sim, comecei a aprender espanhol. Minha única experiência real com o idioma de Cervantes foram as aulas com a professora Roseli Daltério, na Ibero-Americana (era a língua complementar para os cursos de tradução) e uma pequena viagem a Cuba para um congresso de germanística, uma experiência fantástica na isla del Capitán. E apenas com essa viagem que percebi como é rica e bonita a língua dos hermanos. Não comecei do básico, pois esse aprendizado, mesmo que distante, ficou na cabeça e pude dar uma avançadinha e entrar no nível intermediário.

A primeira aula foi na segunda-feira passada e uma das minhas dificuldades foi a de me concentrar para não disparar a falar português. Acredito que no início esse seja o grande problema, que pelo visto algumas pessoas não conseguem superar em médio prazo.

Aprender um idioma (de verdade, eu digo) exige algumas coisas das pessoas que hoje em dia quase ninguém está disposto a ter e se conceder. Inclusive, essas coisas costumam causar pavor nas pessoas e os fast courses se multiplicam como coelhos por conta dessa ojeriza que a maioria tem delas. Tempo, dedicação e paciência são elementos fundamentais (ao meu ver) para se aprender um idioma. Mesmo que seja um idioma mais próximo do nosso, como no caso do espanhol, e mais ainda quando o idioma ficar muito distante da nossa realidade.

Encontrei uma moça, a Tatiana, que acaba de começar o curso na mesma escola que eu. Por acaso, quando viu que eu estava voltando da mesma escola, me pediu para que eu a acompanhasse até o seu carro, pois havia um cara meio estranho rondando a escola e ao que parece havia escolhido a moça como possível vítima. Conversamos um pouco, ela teve uma experiência com o aprendizado do alemão e me disse logo de cara algo que ninguém nunca havia dito para mim de primeira, algo em que acredito muito: para aprender o alemão, é necessária dedicação praticamente diária, ao menos no início, para que o restante do aprendizado (que pode levar vidas e vidas [risos]) seja mais tranquilo. Acredito que não excluo nenhum idioma dessa regra, visto que o aprendizado vem com a repetição e internalização de estruturas e, em seguida, com a liberdade para brincar com essas estruturas dentro das possibilidades da língua e do léxico. Errar, acertar, como ao aprender sua primeira língua, e corrigir no banco de dados da cabeça o que seja necessário. Um ótimo [e muito rígido] professor que tive no Goethe, o Henrique Oliveira, sempre dizia: Die Wiederholung is die Mutter der Sprache, a repetição é a mãe do idioma.

 Desejem-me sorte nessa nova empreitada. Também tenho uma pergunta a quem se interessar a responder: para você, qual seria uma boa fórmula para aprender um idioma?

Correndo a favor do tempo…


Há pouco mais de um mês me tornei 100% autônomo, o que até então era um sonho longínquo. Por diversos motivos que não cabem neste blog, tomei coragem e me lancei no desconhecido. Até agora, 25 de junho, tudo corre muito bem, obrigado. A única coisa que tem me deixado cabreiro é o que deve deixar todo tradutor autônomo maluco: o famigerado prazo.
Tenho uma cabeça ainda de peão, a pressão ainda é o fio condutor de muitas das coisas que faço. Se há pressão, há produção. Aos poucos, porém, tenho aprendido a gerenciar meu tempo de forma que eu possa aproveitar o que minha escolha me trouxe de melhor (ou seja, um controle sobre minhas atividades durante o dia e a decisão sobre fazer ou não um serviço) e controlar o que ela ao mesmo tempo proporciona, uma liberdade nunca antes experimentada por mim na história deste País. Há um tempo comentei aqui sobre o esquema pomodoro que para mim funciona quando a concentração resolve dar uma volta no sofá ou quando há metas muito urgentes. Mas cada um lida como se sente melhor com a famosa tia Dédi Laine, senhora maldosa e sádica, sempre com um chicotinho na mão e o salto-agulha pisoteando nosso teclado (me lembrou a Mara Tara, do Angeli).
Agora quero saber de vocês: como gerenciam o tempo e fazem 24 horas renderem?

iPad e o arrependimento

Assim que comprei o iPad, há pouco mais de um mês, a primeira coisa que me veio à mente foi:

— Vou me arrepender…

Aos poucos percebi que era bacaninha tê-lo, podia fazer muitas coisas nele… por exemplo não me entediar mais enquanto esperava alguém num café, ver e-mails aqui e ali, ler um livro mais pesado que ele sem o incômodo de levar um trambolho na bolsa e por aí vai. Tudo que talvez eu pudesse fazer num celular. E talvez por isso doesse tanto na consciência ter comprado o que muitos chamaram de iPhonão ou iPodão.

Até que um dia eu estava no segundo dia de um curso de tradução no qual o professor havia distribuído uns textos traduzidos para que pudéssemos compará-los aos originais, verificar as influências etc. Muito bem, cheguei no segundo dia com meu brinquedo novo, todo orgulhoso, quando ouvi:

— Hoje vamos trabalhar naqueles textos que dei para vocês na semana passada…

Gelei. Vendo todos tirando seus textos das bolsas e mochilas, do meio dos cadernos. Fui para minha bolsa e, claro, a papelada havia ficado dentro do caderno que eu havia esquecido numa outra mochila. Ótimo, ficaria olhando para o teto durante toda a aula… até que o professor disse:

— Como vocês sabem, retirei esses textos do site…

Ouvi cornetinhas angelicais ao olhar para a tela do iPad. Mais que depressa abri o navegador e voilá, lá estavam todos os textos que analisaríamos nas aulas seguintes. E a aula seguiu sem percalços e eu, agradecido ao equipamento e ao professor, fui para casa pensando: nada de arrependimentos…

Sentir a tradução

Agora que já está publicado, posso falar sobre um dos livros que traduzi no início deste ano, mas não com o intuito de fazer um jabá básico, mas para comentar algo que todos os tradutores devem sentir em maior ou menor medida durante a tradução. Não é sono, nem tédio, nem cansaço, coisas normais durante textos mais longos como um livro. Mas aquele envolvimento que a gente nunca imagina quando inicia uma nova empreitada dessas, que pode envolver diversos sentimentos: raiva, tristeza, ódio, alegria… mais uma loucura das nossas aventuras tradutórias.
Posso dizer que me diverti muito ao traduzir Sincero – a história real e bem-humorada de um homem que tentou viver sem mentir (Verus Editora), do jornalista alemão Jürgen Schmieder. Este livro caiu nas minhas mãos quase por acaso, após eu ter declinado por conta do prazo (sempre ele, merece um post no futuro) um outro livro. Eis que o retorno da minha recusa foi este livro divertidíssimo pela mesma editora, o que vejo hoje como uma troca muito feliz. Quando li o índice do livro já tive a primeira certeza: vou rir com este livro. E não deu outra, me peguei muitas vezes gargalhando entre uma frase e outra, entre uma história e outra desse jornalista maluco que resolveu passar a quaresma sendo sincero com tudo e com todos, doesse a quem doesse. Vivi com esse cara durante uns três meses, enlouquecido com outro alemão (o Domscheit-Berg, do Wikileaks), e compartilhei meu texto com ele para que o cara falasse em português de suas desventuras engraçadas.
Mas também me emocionei, claro. Não vou dar uma de spoiler aqui, mas há um trecho que com certeza vai deixar quem lê-lo incomodado. E quando me peguei emocionado, traduzindo com aquela dorzinha no coração, lembrei de uma palestra da profa. Viviane Veras no V CIATI, na qual ela comentou sobre intérpretes que precisavam fazer intermediações entre criminosos e vítimas em guerras africanas. Não há maneira de ser imparcial num caso desses, em quase nenhum caso no qual as palavras, sentimentos e ações passam pelo crivo de nosso cérebro. Ou seja, tradução é antes de mais nada interpretação na maior parte das vezes (se não sempre) e nós estamos ali, a cada palavrinha pensada, refletida e processada, até o texto final.
Acredito que por isso dê aquela pontinha boba de orgulho quando vemos o livrinho nas prateleiras das livrarias…

Mais uma do Nelson

Esse Nelson de Oliveira não para: são cursos, oficinas, livros lançados em quantidade e qualidade (vejam os prêmios do moço) e ainda pastoreando autores em suas coletâneas que sempre causam alvoroço na iminência do lançamento. Diz o pessoal da época que Geração 90 causou gritos, choros e convulsões (em especial de quem não entrou na lista dos ‘escolhidos’ do mestre Oliveira). Pois agora não deve ser diferente: a partir do dia 21 de junho chega nas melhores casas do ramo livreiro Geração Zero Zero – Fricções em Rede (Editora Língua Geral), com lançamento oficial em diversas cidades (veja P.S.). Entre apadrinhados, descoberto e desconhecidos de Nelson estão Andréa del Fuego, Lourenço Mutarelli, Veronica Stigger e outros. Acredito que de alguma forma o intuito dele era o de trazer um pequeno panorama do que foi produzido nos primeiros 10 anos deste novo século, algo que não se pode menosprezar. Nelson brinca mais uma vez de padrinho de uma nova geração de autores, muitos dos quais foram seus oficinandos, o conheceram ou no mínimo têm contato com ele.
Os dados estão lançados. E o livro, só no dia 21. Vejo vocês por lá, na Livraria da Vila da Fradique? Será no dia 21 de junho, terça-feira, das 18h30 às 21h30. Vejam o convitinho abaixo.

PS.: Também haverá lançamento em Brasília (dia 19.7, no Café com Letras), no Rio de Janeiro (dia 29.6, na Livraria Travessa), em Salvador (27.7, na Livraria Cultura) e em Porto Alegre (dia 12.7, na Palavraria).

Tradução e tecnologia combinam?

Já respondo: sim, definitivamente sim. E quem ainda não acordou para isso ainda mais cedo ou mais tarde estará fadado a tomar um chega pra lá do mercado. Semana passada houve uma despedida da última fábrica de máquinas de escrever do mundo e aposto que diversos tradutores sentiram o coração doer com essa notícia. Não duvidaria se alguém me dissesse que algum ainda prefira a linda Olivetti cinza ou a IBM eletrônica (que tem até memória!) e posso dizer uma coisa sem medo e sem piedade: o mundo mudou e quem não acompanhar a cavalgada louca dele vai cair do cavalo.
Ouvi uma história de um amigo tradutor que foi dar aula de Wordfast ara uma colega (se não sabe o que é, google it). Ele primeiro explicou como funcionava e tudo mais e disse: agora vamos começar a tradução! A colega, mais que depressa, pegou seu caderninho e começou diligentemente a traduzir com sua linda canetinha Bic.
Tradutor não deve apenas estar antenado com sua área e correlatas, com as últimas teorias (há quem diga que são inúteis, de quem discordo) e com as tecnologias em tradução que são diversas, tantas que assustam. Não se restingem às famosas memórias de tradução (CAT [Computer Aided Translation] tools), mas há programas de alinhamento, edição e correção de código, conversão de arquivos, ferramentas de terminologia e muitos outros.
E você ainda com suas fichas pautadas?
Por isso dou uma dica ao iniciante e ao já experimentado que ainda não se aventurou no mundo da tecnologia: visite blogs brasileiros e estrangeiros, fuce na internet e entre em comunidades de tradução e tecnologia. Procure colegas que sejam feras no computador, corra atrás de cursos. Assim o mercado naturalmente vai se aproximar de você e você do que rola por aí em materia de tecnologia.

PS: Recomendo dois blogs muito bacanas: o Tradução Via Val
e o Tradutor Profissional . De lá, com certeza você encontrará muitas coisas bacanas por aí.
PS 2: Voltei!

Tudo novo de novo…

“Vamos começar/colocando um ponto final…”

Um cantor e compositor que gosto muito, Paulinho Moska, fez a música que dá título a este post e a primeira frase da canção é esta. Sempre gostei muito dessa música, inclusive imaginei diversas vezes roteiros para o clipe da tal música, como seria e afins. No entanto, nunca pensei que ela fosse me falar tanto como hoje, quando coloco um ponto final numa vida e recomeço outra, depois de muito lutar para prolongar uma f(r)ase de pelo menos 11 anos. Muito aprendi, muito compartilhei, mas chega uma hora na qual o fôlego acaba e o derradeiro é inevitável. Chega de vírgulas, partamos enfim para um novo período.
Que ainda é estranho. Coberto de uma névoa espessa, mas que aos poucos se desvanece. Hoje andei a esmo, pelo simples prazer de fazê-lo. Há muito não tinha vontade nem tempo para isso, afogado numa vida estranha, muito clara e asséptica, cheia de certezas que, no fundo, eram mais incertas que minha caminhada sem rumo. Hoje, na incerteza, estou muito mais seguro. Viver um paradoxo, que seja um por vez, não deixa de ser saudável.
Tantas metáforas às vezes deixam as pessoas preocupadas, mas não tem motivo. Melhor eu não poderia estar depois de uma semana de liberdade de amarras que eu mesmo me coloquei, por isso minha responsabilidade era desatá-las. O que não teve e não tem preço.

PS.: A quem interessar possa, este post refere-se à minha vida profissional apenas. O que não é pouco…